O Patrono

Vida e Obra

O zelo apostólico do Padre José Antônio Pereira Ibiapina, no percurso do século XIX, no interior do Nordeste brasileiro, deixou marcas significativas, não apenas na organização posterior da Igreja, mas, sobretudo, na vida das pequenas comunidades desta região..

Pe. Ibiapina nasceu a 05 de agosto de 1806, na fazenda Olho D’água do Riacho de Jaibaras, Município de Sobral, Ceará, sendo filho de Francisco Miguel Ibiapina e Tereza Maria de Jesus. Seu pai, na função de tabelião e escrivão dos Correios levava uma vida itinerante, passando pelas cidades de Sobral, Ibiapina, Icó e, posteriormente, Crato e Fortaleza.

O menino José, ainda em terna idade, teve de transferir-se para a cidade de Icó no Ceará, onde seu pai exercia o tabelionato público. Em 1819 foram removidos para o Crato, onde permaneceram até 1823, quando se transferiram para Jardim e, posteriormente, para Fortaleza. Durante a permanência na cidade do Crato o menino José completou a instrução primária, embora, os rudimentos de língua latina, aprendeu com o renomado latinista Joaquim Teotônio de Melo na cidade de Jardim - CE. Transferidos para Fortaleza em 1823, Ibiapina seguiu para Olinda em Pernambuco, onde pretendia matricular-se no seminário daquela cidade, o que não aconteceu em virtude da crise por que passava o tradicional educandário eclesiástico. Ibipina recolheu-se no Convento das Mercês, onde continuou seus estudos de filosofia e outras disciplinas.

A vida de Ibiapina foi ponteada por muitas tragédias que lhe deixaram marcas profundas. Perdeu a mãe em 1823, vítima de um parto prematuro. Em 1824, rebenta no Ceará a Revolução da Confederação do Equador. O pai participou ativamente como revolucionário e, como era costume entre seus pares, acrescentou ao seu nome o apelido de Ibiapina, homenagem à cidade serrana onde durante vários anos habitou. A rebelião foi sufocada e, em conseqüência, o pai de José Pereira Ibiapina é executado a sete de março de 1825, no local onde hoje se encontra o Passeio Público de Fortaleza. O irmão mais velho de Ibiapina, Raimundo Alexandre, sofreu degredo na Ilha de Fernando de Noronha, onde foi vítima de bárbaro assassinato. Todos esses acontecimentos exigiam decisão de graves conseqüências. Interrompe então, os estudos e volta ao Ceará para assumir todas as responsabilidades da família.

Em 1827, Ibiapina retorna ao Pernambuco. Com a instalação do Curso Jurídico em Olinda no ano de 1828, ele matricula-se no mesmo, concluindo-o na primeira turma de bacharéis, em 1832. Em 1º de janeiro de 1833, tendo concluído com brilhantismo o curso jurídico, Dr. Ibiapina é nomeado professor de Direito Natural na escola onde se formara. Sua atuação como professor foi interrompida, no entanto, neste mesmo ano, quando foi nomeado, por Decreto de 12 de dezembro, juiz de direito e chefe de polícia da Comarca de Quixeramobim, no Ceará. No exercício de suas funções não era apenas o juiz, era instrutor. Não mediu esforços para explicar o Código do Processo Criminal aos iletrados componentes do júri, ensinando-lhes as disposições legislativas e penais e a beleza do Direito e da Justiça. Apesar de seu esforço para capacitar todos os componentes do júri na aplicação justa das leis, Ibiapina é um dia traído. Seu ideal de justiça foi bruscamente atingido pela absolvição de um criminoso, protegido pelo Presidente da Província, em um júri presidido pelo próprio Ibiapina. As relações entre ambos ficam estremecidas por este episódio e outras distorções que já haviam ocorrido. Um espírito correto como o de Ibiapina não podia aceitar esta situação. Em 14 de novembro de 1835 rompeu com o Presidente e pediu exoneração.

Após este período, Ibiapina exerceu ainda as atividades de Deputado Federal na Assembléia da Nação, como candidato mais votado no Ceará, para a legislatura de 1834 – 1837. Desgostou-se também com a política ao defrontar-se e combater, sem êxito, casos de corrupção. Renuncia, por isso, ao mandato e retorna ao Recife entregando-se à reclusão e meditação durante três anos. Após esse tempo é acolhido no Seminário por Dom João da Purificação Marques Perdigão, bispo de Olinda. É ordenado aos 47 anos em 03 de julho de 1853. Seu sobrenome foi substituído de Pereira por Maria, em homenagem àquela que seria, pelo resto de seus dias, o soberano motivo do seu culto e a segura inspiração do seu apostolado. A essa época, o Padre Ibiapina já havia traçado os seus planos. O Nordeste descristianizado pedia-lhe ajuda e, para isto, ele tinha conhecimento e condições. Todos os cargos de relevância que lhe foram oferecidos, Ibipina recusou, até a mitra de Bispo. O seu desejo era atender aos clamores do Nordeste, era viajar, pregar o Evangelho, educar, ser missionário.

O Nordeste, onde o Padre Ibiapina intencionava desempenhar sua obra, era um sertão inóspito. Durante muito tempo, o sertão nordestino era habitado por uma gente muito simples, apesar do acelerado desenvolvimento que se desencadeava na faixa litorânea brasileira, decorrente da centralização de todas as atividades sócio-econômicas e culturais nesta área. Neste período, o Nordeste era um conglomerado de sítios, fazendas e engenhos, onde a relação semi-feudal permanecia. A cultura era rude, a vida era difícil em todos os sentidos, e tudo isso levava esta gente a uma ignorância selvagem a ponto de cometer, sem o menor respeito pela vida humana, crimes e mais crimes.

A situação complicava-se mais ainda, quando os criminosos se asilavam em casa dos “padrinhos” que eram muito comuns na época. Durante toda a segunda metade do século XIX e no início do século XX, vários conflitos ocorriam, dos quais podemos destacar três episódios que retratam com ênfase a realidade interiorana nordestina, são eles: Canudos, Juazeiro do Padre Cícero e Caldeirão do Beato José Lourenço.

Lutando contra a ignorância selvagem, contra o fanatismo, a incredulidade e a violência, Ibiapina, com todo o seu zelo apostólico, trabalhou, se fez missionário durante todo o resto de sua vida, empregando o conhecimento jurídico e em letras, que tinha adquirido na formação intelectual e a de sentimentalidade e fé que se acumularam em toda a sua formação espiritual. Seu intuito era mudar o sertão, não por fora mas, por dentro.

Aos 48 anos de idade, o Pe. Ibiapina conseguia desfazer-se de todos os cargos a ele confiados na Diocese de Olinda e iniciava, assim, o seu trabalho de missionário pelos sertões do Nordeste. Sempre com um espírito forte e atendendo às suas mais íntimas aspirações, lançava um olhar de zelo e cuidado sobre a gente atrasada, a terra mal cuidada, a família desestruturada, a Igreja Católica cheia de confusões em todo o Nordeste; e por mais que descortinasse o olhar, apenas desajustes e coisas fora do lugar seriam encontrados. E o Pe. Ibiapina sentia-se cada vez mais imbuído de uma responsabilidade sem fim. Foi com essa vontade e dedicação dispensadas ao trabalho que Ibiapina missionou em todo o Nordeste. Percorreu cidades e povoados levando a mensagem divina, conciliando intrigas e construindo obras de caridade destacando-se que estas atividades não se constituíam como assistencialismo, mas promoção humana, passando, então, pelo Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco.

Procurava o Pe. Ibiapina atender, desta forma, aos desvalidos e aos menos favorecidos, e esse atendimento somente podia ser feito através de atividades sociais que permitissem a todos, melhores condições de vida, por isso, a partir de estudos das carências com as populações locais e com a participação efetiva das mesmas na execução fundava capelas, abria cacimbas, construía açudes, orfanatos, casas de caridade, cemitérios, pelo interior do Nordeste. Era um trabalho feito juntamente com o povo e destinava-se a esse próprio povo.

O padre Ibiapina realizou seu apostolado no plano dos verdadeiros problemas humanos, baseando-se nas antigas estruturas de coesão social, como o mutirão, o artesanato, o compadrio, o costume de dar a “tomar conselhos”. Estas instituições sociais ajudaram poderosamente para que ensinasse ao povo a nova ética do trabalho exigida pela vida moderna. A sua ascendência sobre as populações nordestinas se baseia, em primeiro lugar, nessa habilidade em aproveitar as tradições populares..

Todas as suas fundações tiveram relevância no desenvolvimento do Nordeste. O trabalho do Padre Ibiapina é o trabalho do homem que pensou, antes de tudo, na promoção humana. Ele deixou vestígios no plano social e econômico, educando o povo para a disciplina do trabalho regular, exigida pela sociedade moderna.

A atenção do Padre Ibiapina não se voltou para as estruturas jurídicas como municípios e paróquias, mas para os núcleos habitacionais em si, de tal sorte que o interesse dele não era, em primeiro lugar, consolidar a paróquia pelo sistema sacramental, nem a ortodoxia, pela doutrinação, mas, antes de tudo, a formação de comunidades, nas quais o homem pudesse sobreviver com certa dignidade.